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Especialistas e estudos apontam estresse hídrico em aquífero que abastece a região

04/03/2025

Especialistas em águas subterrâneas e estudos publicados desde 2013 apontam riscos de contaminação e estresse hídrico no Aquífero Tubarão. Que atualmente abastece mais de 900 poços outorgados pela SP Águas nos municípios que compõem a RPT (Região do Polo Têxtil) — Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia.

Essas pesquisas motivaram a Agência das Bacias PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí) a contratar uma empresa para avaliar o uso do recurso hídrico em Nova Odessa e Americana, com ordem de serviço emitida no último dia 5. A contratada terá de sugerir medidas e regras para proteger reservas de água, além de atualizar dados.

Um aquífero é uma formação geológica, como uma profunda “camada” debaixo do solo. Que faz o armazenamento e o escoamento da água vinda da chuva ou de áreas de recarga. Como é constantemente renovado, o reservatório pode durar por muitos anos oferecendo água de qualidade, mas é necessário fazer o uso sustentável, respeitando os limites de exploração.

A RPT é contemplada pelo Aquífero Tubarão, que tem como um de seus subaquíferos o Itararé e é considerado um dos mais complexos do Estado.

No entanto, o uso dessa reserva de água tem sido alvo de apontamentos. O primeiro estudo que trouxe problemas foi publicado em 2013 pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) e Governo do Estado.

De acordo com o documento, existe um estresse hídrico no aquífero dentro da área que compreende as cinco cidades da região. O volume retirado do reservatório é 50% maior do que a vazão mínima de permanência da bacia. O que significa que a extração é maior do que a capacidade de renovação, o que pode, a longo prazo, afetar a sustentabilidade dele.

Ainda conforme esse estudo de 2013, foram mapeados diversos pontos com risco de contaminação na RPT, principalmente em Americana. Isso fez com que os municípios entrassem em uma lista que aponta a necessidade de restringir o uso das águas subterrâneas.

Os apontamentos foram reforçados em outra pesquisa, realizada pela empresa Profill, em 2019, que concluiu a existência de uma elevada densidade de vazões outorgadas. Bem como mapeou dezenas de contaminações já confirmadas em Americana e Nova Odessa.

Estresse Hídrico em Aquífero

Ao LIBERAL, a SP Águas informou que há 966 poços outorgados na região, que somam a vazão 152,8 mil metros cúbicos diários. Assim sendo, há 375 poços em Americana, 145 em Santa Bárbara, 157 em Nova Odessa, 213 em Sumaré e 76, em Hortolândia.

Os dois estudos e o entendimento de que os problemas continuam motivaram a Agência PCJ a contratar a empresa Água e Solo Estudos e Projetos, de Porto Alegre (RS). Dessa maneira, no fim do ano passado, para avaliar o uso de águas subterrâneas em Americana e Nova Odessa. O investimento total é de R$ 685,5 mil e o prazo para conclusão é de 18 meses.

“Espera-se que com a conclusão do estudo, os Comitês PCJ possam ter maior conhecimento sobre a situação das águas subterrâneas na região dos dois municípios e com isso seguir com as implementações de ações necessárias, de forma a buscar a sustentabilidade hídrica”, comentou a diretora-técnica da Agência das Bacias PCJ, Patrícia Barufaldi.

O professor da USP (Universidade de São Paulo), coordenador do Projeto Sacre (Soluções Integradas de Água para Cidade Resilientes) e vice-presidente da Abas (Associação Brasileira de Águas Subterrâneas) até 2024, Ricardo Hirata, lembrou que grande parte das indústrias na RPT explora o aquífero.

Em suma, ele também atentou para a grande quantidade de poços clandestinos, sem outorgas. Que representam cerca de 80% do todo no Brasil e de 60% a 70% no Estado de São Paulo.

“Tente imaginar um recurso que 80% você não tem controle da extração ou não tem nem ideia de onde está. Consequentemente, há uma falha na estrutura de gestão e de fiscalização. A lei existe, é correta, mas se não tem fiscalização, você não tem controle. E isso não é exclusivo do Brasil, no mundo todo se discute isso”, disse.

A clandestinidade pode levar à superexploração, bem como a comunicação entre aquíferos e contaminações.

Fonte: Liberal